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Tantos sonhos que eram tão meus e, justamente por serem meus, ele tomou para si para ajudar a realizá-los. E conseguimos tanto e tantas vezes! E temos tantos outros!

Para tudo até hoje, serve: eu sou muito boa em montar um roteiro, mas não faço ideia de que direção tomar, e disso ele entende muito bem e assim caminhamos juntos.

São 11 anos com meu querido.

nove(nta)

Eu li um texto no início deste mês que falava alguma coisa sobre lojas de R$ 1,99. Imediatamente aquele texto, eu não sei como e nem o porquê, me levou a uma memória muito doce, que eu não sabia que eu tinha. Na minha mente, veio a minha imagem atravessando a rua de mãos dadas com a minha avó paterna (única pessoa com quem pareço fisicamente e tenho certos hábitos iguais), e ela me levava numa loja de R$ 1.99 que ficava em frente à ótica da minha família. Nós fizemos isso algumas consideráveis vezes quando eu chegava da viagem para visitá-los. O que eu fiz? Eu abri a boca pra chorar. Eu não lembrava daquilo e foi tão forte na hora, que nem eu entendi. E eu estranhei mesmo, achei que, bem, eu devo estar na TPM? A vó faleceu faz tempo, não tem o porquê ser desse jeito. Olhei a data: nove de abril, ela faria aniversário naquela semana, três dias depois. Imediatamente eu entendi.

Passado e esquecido isso, esta semana foi muito corrida para mim, e eu não vi meus pais e não falei com eles. Nessa madrugada, de sexta para sábado, fui dormir me sentindo melancólica, triste. E se eu tivesse perdido eles? Pensei. E se tivesse acontecido alguma coisa? Eu não falei com eles. Será que aconteceu alguma coisa? Olhei o relógio, era 2:10 da manhã, eu não ia ligar. E assim, eu não sei porquê, eu chorei essa madrugada. Eu tinha um almoço com amigos e resolvi ligar para o meu pai esta manhã antes de ir. Ainda sentia um peso, uma sensação ruim, o mesmo daquela noite. E a gente se conhece. A gente não pode deixar essas coisas passarem. Algo aconteceu. Ele atendeu, estava tudo bem com ele, ele disse que ia ao centro da cidade, eu alertei que havia lido sobre um assalto a banco nesta manhã por ali, pra ele tomar cuidado. Me avisou que minha mãe havia entrado no banho, e que então eu não conseguiria falar com ela, mas que estava bem. Bem, bem, então, não é nada, oras, te acalma Lya. Desliguei. Entrei no grupo do whatsapp da família para apagar algumas das 500 imagens enviadas de Bom Dias, e Dilmas, e Impeachments (faço isso quase todo dia). Ali, havia um recado da minha tia, lembrando-nos que hoje, dez anos atrás, foi o dia em que minha vó faleceu e quem pudesse, orasse por ela. Eu não lembrava, eu não guardo datas de morte. Imediatamente eu entendi.
Fui segurando o choro de casa até o almoço com os amigos.

Eles se vão, a gente fica. Tem que haver algum laço. Tem que haver alguma memória emocional que ultrapasse anos, a vida, a morte.
Acho que meu coração é pequeno, ele transborda tão fácil.
Abril, o mês que ela nasceu e se foi, vai embora.
Que maio me seja mais leve.

Há uma nuvem de lágrima sobre os meus olhos, Dizendo pra mim que

Com a chuva de verão, chegou também um sentimento de saudade imensa e indescritível da que vos escreve. Agora é todo dia. E se repete em mim todo ano. Isto porque é esta chuva que me lembra os mais queridos momentos da infância que tive.

Portanto, a chuva de verão, além de gostosa no fim do dia, em toda a sua demonstração catastrófica, que durará apenas dez minutos, é responsável também por uma imensa sensação nostálgica, e eu sei que é amor. Sou eu, é meu pai, é minha mãe, é minha irmã. Somos nós, depois de um dia inteiro na praia, repetidamente, depois de um belo banho tomado, na varanda de casa, deitados na rede. Dia este com muito sal e sol torrando na pele, enfrentando mar bravo. É minha irmã que já pegou no sono. É meu pai nos lendo um livro na varanda. É a comida da minha mãe. Sou eu vendo a nuvem gigante chegar. Ano após ano, enquanto assim foi.

Da infância, é isso que a gente leva.

Somos pequenos demais para saber de tudo – ainda bem – mas é de lá que carregamos muita coisa para fase adulta.

Eu não sou mãe. Que fique bem claro aqui, eu não sou mãe. Eu sou um adulto que teve a sorte de uma infância feliz. E a felicidade, eu sei, é algo bastante particular em definição. Para mim, felicidade, por exemplo, pude descrever ali. Mas não raramente eu penso: os pais de hoje se preocupam com as memórias que os filhos levarão consigo desta fase? Será que não deveria ser esta a verdadeira preocupação, das dezenas que os vejo falar, que deveria se ter? A gente sabe que, no fundo, as viroses serão curadas, os choros serão calados, os piolhos serão mortos. Precisa mesmo comprar/vestir/ir/fazer aquilo e acolá?

Talvez porque eu e a minha irmã não éramos do tipo que pedia coisas, ou precisávamos ter porque todo mundo tinha. Eu não sei explicar bem o porquê. Eu não sei direito o porquê que estas coisas não eram necessárias para nós duas no dia a dia. Talvez porque esta lacuna era suprida com outras coisas. Coisas que, como descrevo aqui, não custava um real se quer.

Para mim, a chuva de verão, além de gostosa no fim do dia, em toda a sua demonstração catastrófica, que durará apenas dez minutos, é como a sensação que foi minha infância olhando daqui, linda, que durou dez longos e doces minutos.

minha vida de freelancer


Das coisas que gosto fazer.

Este grande (palavra adicionada após terminá-lo) texto inicia feito blogueiro babaca: a pedidos, estou escrevendo este post. A gente sabe que ninguém pediu, mas a gente finge que acredita.

Mas veja só, este post foi a pedidos. A pedido de duas pessoas que não se conhecem, e coincidentemente, em um espaço de uma semana, me solicitaram a mesma coisa. Portanto, achei pertinente.

Minha vida de freelancer porque, ora, assim ocorre comigo.
Porque se tem algo que posso lhe dizer é: não há regras, mas há certas necessidades ou determinadas características que acredito que deva-se ter, ou, se não as tem, deve-se desenvolver.

Talvez seja um post para esclarecer, talvez um post para encorajar, talvez um post para ver que não, não é para ti. De repente, não agora. Ou nunca mesmo, como achei que era meu caso.

E eu era assim. Eu precisava de segurança, de estabilidade. Eu tinha medo. Vinde a mim os jobs, pensava eu, sentada na cadeira das empresas de design que trabalhei. Mas então aconteceu de eu não ser mais feliz daquele jeito. Eu queria trabalhar para mim. Batalhar por mim. Ver meu trabalho mais valorizado. Porque meu trabalho dá trabalho. Me ver crescer, já que não me via crescendo enquanto as empresas cresciam. E a vida de freelancer te dá isso.

O que aconteceria? Meu Pai do Santo Cristo, eu não sabia, e eu não sei, mas eu disse para mim: vou experimentar 6 meses.

Eu pedi demissão em novembro e trabalhei até dezembro do mesmo ano, 2013. Somente no mesmo dezembro de 2013, nas ‘férias coletivas’ dos outros e do meu desemprego, eu fui pesquisar como era efetivamente a vida de um freelancer. O que raios tinha que fazer para ser freelancer. E lá estavam todas as regras: crie uma rotina, planeje suas horas, não trabalhe de pijama, organize sua agenda, etc.

Um dos melhores elogios que recebi de um chefe, não foi um elogio ao layout, foi que eu tinha uma organização de execução de trabalhos superior. Eu sabia me programar para executar todas as tarefas diárias e isso vem de algo simples para mim: eu preciso me organizar antes de trabalhar. É uma ferramenta fundamental, e eu já tinha.

A mudança de trabalhar em casa me fez ter duas situações: quando eu morava com meus pais e agora sem eles.
Com meus pais foi uma época difícil nos primeiros meses. Eu estava em casa, portanto, para eles, disponível. Enquanto eu estava no meio de algum processo criativo, ou um olho na tabela de códigos de peças de catálogo no excel, outro no InDesign, outro no e-mail, outro no peixe e outro no gato, e pelo amor de deus ninguém me interrompa porque é um trabalho que exige concentração:

– Lya, podes vir me ajudar a descascar batatas?

Sim, esta era Madame Z.
Problema em descascar as batatas para ela? Nenhum.
Mas não naquela hora.

Eu tive que conversar em casa. Eu expliquei que poderia ajudar, mas eu estava sim, trabalhando. E que naquele momento e em vários outros, eu não tinha como interromper imediatamente a sequencia de raciocínio em que estava, para sair correndo e cortar batatas. Minha mãe entendeu um tempo depois.

Naquela época, eu acordava sempre no mesmo horário (como recomendado) e trocava de roupa (como recomendado). Me vestia feito mendiga, mas pelo menos não era pijama. Meses depois, eu estava de pijama trabalhando, como faço até hoje, mais de um ano depois. Trocar de roupa era um dos ‘itens essenciais’ para um freelancer em casa. Quando percebi, a roupa que eu vestia, fosse pijama, fosse mendiga, não mudava em nada minha dedicação ao trabalho. Hoje acordo a hora que quero. Pode ser as 8, pode ser as 9, pode ser as 10. Tudo depende do andamento do projeto que estou executando. Outra questão, eu não sou um ser noturno. Eu funciono durante o dia.

Agora, dona do próprio lar, distração em casa? Poucas. Meu senso de responsabilidade é maior que isto (inclusive gera alguns puxões de orelhas – com razão – por vezes ser exagerado). E acredito que isto foi outra característica desenvolvida nos anos que trabalhei em empresas. Junto disso, venci grande parte do monstro chamado procrastinação. Por favor, faça listas de tarefas.

Sempre trabalhei em equipe e achei que sofreria muito da falta de outras pessoas ao meu redor, carrego hoje grandes amigos vindos do trabalho. Mas, tirei de letra. Acho que por ser alguém que consegue ficar bem sozinha.

Aprendi que se eu não mudasse, nada na minha vida mudaria. Aquela virada dependia de mim e só de mim. E assim se fez, ou assim me fiz. Me vi trabalhando, indo destemida a reuniões, conversando, apresentando o que sei fazer para pessoas que não conhecia. Eu cresci. E se eu voltar a trabalhar em uma empresa, eu voltarei melhor, porque soube me virar sozinha.

Eu dizia, que sorte eu tenho. Mas parei para pensar e não, não era sorte. Eu estava apenas colhendo fruto de muita dedicação em todos os lugares que passei. Que sempre coloquei acima de várias outras responsabilidades (que não é bonito e a gente chega a ficar doente com isso).

Não sei o dia de amanhã.
Não sei até quando terei a oportunidade de trabalhar assim, mas estou aproveitando o momento, que dura atualmente quase um ano e meio sem parar.
E espero parar. E quando digo parar, é espero poder tirar férias, que não pude. Preciso ver as coisas lá fora.

Os meses bons superaram os menos bons e me fazem querer continuar e tentar.

Eu gosto daquela frase do Guimarães Rosa,
A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

E se teve algo que ganhei, foi coragem.